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Sexta-Feira, 22 de Dezembro de 2017
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As panelas silenciosas



Chargista Nani

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O Presidente, para usar uma expressão cunhada por ele mesmo, segue “aproveitando a impopularidade”. Parece, aliás, ter um talento incomum para identificar o que ninguém quer – e fazer exatamente isso. Ele e seu ministério de enrolados (mais um, que parecia meio estranho no ninho, está entrando no padrão) esmeram-se em cultivar o desamor do povo, desafiar o mau humor da media e afrontar todos os padrões éticos.

Compulsão? Não, é síndrome de onipotência. O divórcio entre governo e sociedade, entre política e interesse público (que vem de longe, mas atinge agora o absoluto) tem nestes dias o tempero do assumido, aparentemente até com algum orgulho. “Digo o que quero, quando quero e onde quero”, a inacreditável frase presidencial que dias atrás rendeu manchetes, não se aplica apenas aos ditos, mas também e principalmente aos feitos.

O clima brasiliense que enseja essa monstruosidade e lhe serve de caldo de cultura é o da completa irresponsabilidade diante da população e da História, exibida com total desfaçatez pela classe política. Ao modo de um vírus nefasto, a falta de compromisso com a res publica e o dar de ombros diante das reações negativas, apanágio do Congresso Nacional desde sempre, contagiaram o Executivo e setores do Judiciário – na sua cúpula, sobretudo.

“Estou nem aí”, dizem eles. Après moi, le déluge, ao modo de Maria Antonieta, só que em mau português – mesmo que as mesóclises inoportunas e a fala empolada dos anais sugiram conhecimento da língua de Camões e de Machado. Nem mesmo o idioma, na verdade, é respeitado, no Planalto, na Esplanada ou nas compoteiras gêmeas onde ninguém é de ninguém e todos estão à venda. A Suprema Corte, ao que tudo indica, não quer ficar atrás nessa corrida de pavões para não se sabe o quê. Todos atravessaram o espelho e estão em pleno País das Maravilhas.

Segundo Murphy e suas infalíveis leis da humana miséria, nada é tão ruim que não possa piorar. Em política brasileira, isso é a mais santa verdade. Alguém imaginava que regrediríamos a uma situação pior do que o consulado da estrela rubra? Adivinharíamos que, depois do desalinho e desconchavo dos governos “populares”, das roubalheiras da Petrobrás, BNDES e o que já se sabe, aquilo que falta saber seja ainda mais aterrador?

E, no entanto, já não se batem panelas. Tamanho é o desencanto que os débeis protestos não ecoam; tudo indica que o rebanho amansou e a manada não vai estourar. O silêncio é ensurdecedor. E dele se vão aproveitando os oportunistas de sempre, cochichando armações, tramando conchavos, legislando, administrando e julgando em causa própria. Mas, sobretudo, exercitando a sua colossal hipocrisia. Se ninguém representa ninguém, não se precisa sequer preservar as exterioridades.

O decreto de loteamento das reservas amazônicas provocou repulsa? Tudo bem; edita-se outro dizendo a mesma coisa em palavras criptografadas. O sistema eleitoral vigente (a par do péssimo desempenho) põe em risco a reeleição dos pais da pátria e dos representantes do povo? Não seja por isso; engendra-se uma “reforma política” apta a deixar tudo como está, evitando que se mudem as moscas e seu habitat. O Judiciário se faz de Poder e ameaça acatar os atos de promotores abelhudos? Problema miúdo; infiltram-se agentes políticos nas Cortes e assegura-se por algum meio a “delimitação” sonhada, sem precisar matar mais ninguém.

Aqui no Pampa amado, o débito acumulado de precatórios judiciais passa dos treze bilhões e cresce geometricamente; os salários continuam parcelados e miseráveis, mas – que bom! – não tem faltado combustível para os helicópteros. E, agora que o grande chefe nacional vai à China, nosso chefete local tem mais um motivo para largos sorrisos: ele já foi antes. E as panelas, também aqui, continuam silenciosas; do contrário, de resto, seu ruído seria abafado pelo rugir das aeronaves chapa-branca.


Comentários

Eduardo Waschburger - Advogado 01.09.17 | 16:41:09
Muito lúcido o texto!
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