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Quinta-Feira, 07 de Dezembro de 2017

Morre em Porto Alegre o mágico que dizia ter sido vítima de... “uma mágica jurídica”



Foto Jornal do Comércio – Porto Alegre

Imagem da Matéria

Tio Tony, nome artístico de Paulo Roberto Martins, o mágico mais conhecido do RS, morreu ontem (18), à tarde, aos 81 de idade. Ele estava internado no Hospital Independência, em Porto Alegre, onde dera entrada no final de semana.

Ele começou a sentir dores no peito na sexta-feira (15), sendo levado para o hospital. No sábado, teve uma parada cardíaca, foi reanimado e recuperou-se. Nesta segunda-feira voltou a sentir-se mal e chegou ao óbito.

Nascido em Rio Grande, filho de um comerciante, Tony aprendeu a fazer mágicas ainda na infância. Mudou-se para a capital nos anos 60. Nessa época, já havia adotado o nome artístico que o tornou famoso: era uma homenagem ao ator Tony Curtis, que interpretou o mágico Houdini em um filme (“Houdini, o Homem Miraculoso”), de 1953.

Nos anos 80, tornou-se apresentador de programas para as crianças, o que ampliou sua fama pelo Estado. Comandou as atrações Carrossel Bandeirantes, na Tv Bandeirantes; Tio Tony, na Tv Guaíba; e Mundo Mágico do Tio Tony, na Tv Urbana.

Em 1999, Tony foi o mágico líder no enfrentamento de Mister M, personagem criado pelo norte-americano Leonard Valentino Montano, que mantinha um quadro dominical no Fantástico, onde revelava os segredos do ilusionismo. Tony fundou, então, a Associação Gaúcha dos Mágicos Vítimas do Programa Fantástico.

Esta, em março daquele ano, obteve uma decisão da Justiça gaúcha, com efeitos nacionais, proibindo a Rede Globo de seguir exibindo o quadro produzido em Los Angeles.

A antecipação de tutela para a associação foi concedida pela juíza Gisele Anne Vieira Picos, que estabeleceu punição financeira (R$ 1 milhão) para o caso de desobediência. A Globo ingressou com imediato agravo de instrumento no TJRS, pedindo a suspensão da liminar, o que foi negado pela desembargadora Rejane Maria Dias de Castro Bins.

O pedido de Tony e duas dezenas de colegas contra Mister M e a Globo foi baseado em dois argumentos: abuso de direito e concorrência desleal. “Na revelação dos segredos das mágicas, a essência da profissão é destruída” – argumentou a petição inicial.

A peça jurídica também sustentou que “os mágicos são, de acordo com a lei, artistas profissionais que atuam no campo de diversão pública e como a Rede Globo atua no mesmo mercado, configura-se a concorrência desleal da grande cadeia de emissoras para com os mágicos que são pequenos artesãos”.

"A Lei Anti-Truste proíbe a atuação no mercado de forma a impedir ou eliminar a concorrência. E é isso o que a Globo está fazendo, ao revelar os segredos da profissão. Isso caracteriza concorrência desleal" - afirmou, à época, Márcio Puggina (agora já falecido), um dos advogados da associação.

A suspensão da exibição de Mister M vigorou por 15 dias. Num sábado à tarde, junto ao plantão do STJ – então afeito do presidente da Corte – a Globo conseguiu ver cassada a liminar da Justiça gaúcha. E Mister M voltou ao ar com ampla campanha de chamadas e comerciais, enquanto a profissão dos mágicos minguava.

No final de 2001, num jantar de confraternização realizado em Porto Alegre em que estavam presentes dezenas de advogados e magistrados – e em que houve a apresentação de artistas locais - Tony pediu licença para fazer um elogio e um desabafo:

Louvo a Justiça gaúcha, corajosa e independente. Mas afirmo o meu desencanto com Brasília. Não com a Brasília dos políticos – pois isso seria motivo para uma sátira em outro momento - mas com a Brasília dos tribunais. Foi num deles, de força superior, que uma mágica jurídica fez com que Mister M voltasse ao ar. Meus colegas mágicos gaúchos e eu somos, todos, vítimas dessa mágica jurídica”.

Tony foi aplaudido e chegou, em seguida, a “tirar um pombo” da pequena bolsa de uma psicóloga presente.

- É um pombo honesto! – arrematou Tony.


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