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Edição de sexta-feira, 19 de outubro de 2018.
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Mulheres no futebol



S.C.Internacional / Divulgação

Imagem da Matéria

Pertenço a uma geração que testemunhou as maiores barbaridades nos estádios em relação ao escasso e heroico público feminino. O simples fato de uma mulher “ousar” ingressar no estádio era suficiente para que aos gritos, o bravo público masculino passasse a gritar todo o tipo de impropérios.

À época, com os meus 14 anos, ficava pensando qual seria a razão de tanta raiva dos homens para com as mulheres, se a lógica indicava um outro comportamento.

Início da década de 70, logo após a inauguração do Beira Rio, um estádio diferente dos padrões com os quais estávamos acostumados. Recordo dos garçons nas cativas e perpétuas, de casaco branco e gravata borboleta, vendendo uísque em copo de vidro. Na época, diante das dificuldades para importação, o disponível era o Natu Nobilis, aquele do malte escocês. A única coisa que sabia, pelo relato de amigos mais velhos ou experientes, é que ele não acarretava ´dor de cabeça´ no dia seguinte...

Pois bem, as novas instalações, os novos banheiros, as sociais, as cadeiras, tornaram mais frequente o comparecimento feminino nas partidas de futebol.

No período em que ocupei o cargo de vice-presidente de serviços especializados, tínhamos pesquisas que indicavam que o público feminino era crescente e que isso, em um ciclo virtuoso, provocava um comportamento mais adequado dos homens.

Testemunhei também as primeiras repórteres nas emissoras de cobriam futebol. Incontáveis vezes o maldoso coro pronunciava ofensas a elas.

Agora já mais velho, percebo que a repulsa masculina ao sexo oposto, só pode decorrer de algumas frustrações potencializadas pelo anonimato grupal. O certo é que cada vez mais os nossos estádios foram sendo tomados pela presença feminina. Rostos bonitos, camisetas bem vestidas, graça e menos brigas nas dependências.

Alguns mistérios por parte de alguns torcedores, ainda me desafiam. Qual será a graça de assistir a um jogo, em pé, pulando e quase sempre de costas para o gramado?

Fico sem resposta!

Ontem (3) pela manhã, enquanto ouvia rádio, soube que no último jogo da Libertadores ocorrido em Porto Alegre, um rapaz de 30 anos, foi preso pelo fato de – como foi noticiado – “ter passado a mão na bunda de uma torcedora, antes de entrar no estádio”.

Posteriormente ao fato, foi identificado e conduzido ao JECRIM, sendo punido com a proibição de comparecer ao estádio por 17 jogos.

Imediatamente lembrei da histeria coletiva responsável por tantas desgraças, como aquela que levou a morte um índio em Brasília, pela impulsividade de jovens da classe média. Lembrei de vários rapazes que morreram vitimados por covardes que em conjunto crescem em agressividade.

Logo, a pena aplicada – proibição de comparecer ao estádio por 17 jogos, repito - é ridícula. Esse sujeito deveria ser banido dos estádios.

Interessante a nossa mudança cultural que vivemos. A proteção a diversidade sexual enseja rigorismo na interpretação da lei. Agora, uma mulher fazendo uso da sua liberdade sofrer violência sexual (é assim que a lei refere) em público, gera uma pena que com certeza, transformará o covarde em herói perante os idiotas que lhe faziam companhia, estimulando-o ao ato.

Por outro lado, os clubes deveriam verificar se esse tipo de gente pertence ao quadro social. Caso pertença, a expulsão seria exemplar.

Inacreditável o nosso rumo civilizatório!


Comentários

Maria Christina W P Marcello - Advogada 04.05.18 | 17:49:41

Parabéns caro Dr. Roberto Siegmann pelo seu posicionamento. Claro, lúcido e mais que arejado! Tive o prazer de advogar com o colega antes da magistratura e, em lados adversos, sou testemunha da sua elegância e profissionalismo. Me encanta, - e não poderia ser diferente - que sua postura seja a declinada no artigo. 

átila Bastos - Contador 04.05.18 | 10:02:06

Correta a manifestação, o ambiente nos estádios deve evoluir. Porém, teria sido oportuno citar o caso do torcedor colorado que ofendeu e agrediu verbalmente a repórter Renata Medeiros, ocorrência essa dentro do Beira-Rio.

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