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Edição de TERÇA-feira, 13 de novembro de 2018.

Arrumei um emprego de ministro do Supremo!



Chargista Quinho

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Ganha repercussão nos meios jurídicos um artigo publicado
pelo jornalista Ascânio Seleme, ontem (16), na página 3 do
jornal O Globo. É ficção que tem contornos que se aproximam
da vida real. Uma frase arrematadora é instigante: “Melhor
só senador - mas isso não vale porque o Senado é o paraíso”.

— Rapaz, acho que arrumei um emprego.

— Que boa notícia, é pra fazer o quê?

— Vou ser ministro.

— Opa, cuidado. Ministro do Temer é fria.

— Não, que Temer, que nada. Ministro do Supremo Tribunal Federal.

— Sério, mas aquilo não é um abacaxi? Ouvi dizer que os caras que trabalham lá têm reclamado do salário.

— Achei a proposta boa. O pacote de salário e benefícios é bastante atraente.

— Mesmo? Quanto é o salário, se você não se incomoda de eu perguntar?

— Não, todo mundo sabe. Ministro do Supremo ganha R$ 33 mil por mês. Mas pode aumentar agora pra R$ 39 mil.

— Trinta e três mil não é ruim, mas também não é essa coisa toda.

— Sim, mas o salário é praticamente uma poupança. No pacote entram passagens aéreas, casa e carro com motorista. Some aí mais uns R$ 15 mil mensais que pagaria com aluguel de apartamento, salário do motorista, gasolina, passagens. E tem o abono de permanência, mais R$ 3,5 mil por mês.

— Ah, entendi. É muito mais, então.

— Claro. Outra coisa boa são as folgas e as férias. No total, ministro do Supremo trabalha oito ou nove meses por ano. Tem dois meses de férias e uma porção de recessos e feriados emendados.

— Maravilha. Meu sonho é tirar dois meses de férias. Sortudo.

— Tem mais. Se quiser, ministro do Supremo pode trabalhar até os 75 anos de idade recebendo todas as regalias da função. Não se espante, é verdade. Mas pode também se aposentar antes. E aposentadoria lá é com salário integral. Rerere.

— Você já somou isso? Você tem 45 anos, se viver até os 90, quanto vai dar?

— Somei, dá uns R$ 650 mil por ano. Até os 90, vou ganhar perto de R$ 30 milhões. Por baixo, considerando que eu gosto de viajar, comer e beber bem, posso economizar uns R$ 220 mil por ano. Ou R$ 10 milhões até os 90 anos. Isso se o dinheiro ficar parado na conta. O que você acha? Dá pra encarar?

— Nada mal, amigo. Quero um emprego desses para mim. Agora, tem uma coisa, o assédio deve ser muito chato. Não?

— Sim, mas os caras têm manhas. Outro dia, o Supremo inaugurou no aeroporto de Brasília um sala VIP só para os ministros. Pra não terem chateação na hora do embarque e do desembarque. Sabe como é.

— Que beleza. Mas, em compensação, ministro do STF deve trabalhar muito.

— Sem dúvida, mas o grupo técnico que dá suporte aos gabinetes dos ministros redige todos os votos. E tem gente lá, juízes e analistas judiciários, que ganha quase como ministro. Mas claro, a responsabilidade é muito grande.

— Imagino. Tem que ficar sempre atento às leis, não pode fazer nada que seja contrário ao estabelecido pela lei e pela Constituição.

— Mais ou menos. Não é tão rigoroso assim. Teve ministro que desrespeitou a Constituição mantendo os direitos políticos de pessoa que teve seu mandato cassado. Eles chamam isso de interpretação da Constituição. Uma aberração, mas assim ele decidiu e assim ficou.

— Caramba! Mas ministro não pode tudo. Ajudar amigos, por exemplo, nem pensar.

— Que isso? Já houve caso de ministro que mandou soltar amigo preso. Teve um que mandou soltar afilhado de casamento. Ministro do Supremo pode tudo.

— Rapaz!

— E se for bem discreto, dá pra pegar carona em jatinhos particulares e ir para festinhas de arromba em ilhas privadas.

— Não? Sério? Você jura?

— Juro. E tem mais uma coisa, muito aqui entre nós. Já teve ministro no passado que manteve seu escritório de advocacia em nome de um filho, de um amigo. E, claro, com um sócio oculto desses, todo mundo corre para lá.

— Cara, melhor que isso, só senador.

— É, mas aí não vale, Senado é o paraíso.

Leia a coluna de Ascânio Seleme, diretamente em O Globo


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