Crenças machistas validam a violĂȘncia sexual


Ao perceber que a violência sexual faz parte da vida de todas as mulheres, a jornalista Ana Paula Araújo, 48 de idade - apresentadora do “Bom dia, Brasil” - pôs-se a fazer um retrato dessa realidade brasileira que registra um estupro a cada onze minutos. Depois de quatro anos de trabalho e quase uma centena de entrevistas, ela teve lançado, esta semana,  "Abuso: a cultura do estupro no Brasil", pela Globo Livros. 

A autora avalia "existir um conjunto de crenças machistas que validam a violência sexual". E faz individuações no leque: “São um estupro mais violento ou pequenos abusos no dia a dia, dentro do transporte público, as piadinhas absurdas, aquele tio que se aproveita para passar a mão na hora de um abraço... - o abuso sexual é um fantasma na vida de todas nós”.

Ao longo dos intervalos da rotina como apresentadora da Globo, ela revisitou casos emblemáticos de violência sexual e entrevistou mais de 100 pessoas, entre sobreviventes de estupro, familiares, médicos, juristas, especialistas em segurança pública e em transtorno de estresse pós-traumático.

E ouviu até mesmo alguns estupradores condenados, que conversaram com ela de dentro da prisão.

“Foi triste constatar que o estupro é o único crime em que as vítimas é que sentem vergonha. As pessoas que sofrem violência sexual têm vergonha de expressar, como se tivessem cometido um crime. Eu conto no livro um episódio que aconteceu comigo no transporte público, e mesmo sendo relativamente bobo perto de tantas histórias horrorosas, eu fiquei  constrangida de contar” — diz Ana Paula.

Ela demorou meses para decidir se compartilharia, ou não, a sua vivência no livro. 

Então relatou: “Toda mulher que usa transporte público já passou por alguma situação assim. Um dia eu acordei de um cochilo dentro de um ônibus no Rio de Janeiro com as mãos de um homem desconhecido passando nas minhas coxas”.

A conduta, que na época não configuraria crime, hoje poderia ser enquadrada como importunação sexual, tipificação criada em 2018, mas - dois anos depois - ainda pouco conhecida e pouco aplicada Brasil afora.

“Em 2009, houve uma mudança na lei de estupro que a deixou mais abrangente, enquadrando além da penetração vaginal, o sexo anal forçado e a penetração com objetos. Tudo isso antes era considerado atentado violento ao pudor. Esse crime deixou de existir e tudo passou a ser considerado estupro. Em 2018, acharam que a pena era muito pesada para alguns crimes de menor potencial ofensivo, como esses do transporte público e aí entrou a figura da importunação sexual. Mas sempre que surge, uma lei demora para que todos os agentes públicos consigam aplicá-la de maneira correta. Até hoje encontrei registros de atentado violento ao pudor - que é um crime que não existe há mais de 10 anos. Quando chega na Justiça - se chegar, porque são vários gargalos nesse caminho - aí a Justiça muda a tipificação” - explica a jornalista.

Ela reconhece “o fortalecimento do movimento de mulheres, que nos últimos anos passou a denunciar cada vez mais a cultura do estupro e a violência de gênero”.

E espera que o livro contribua para o debate e sirva como um legado para que a geração de sua filha, hoje com 14 anos, viva em um futuro onde as mulheres "possam se desenvolver e crescer sem ter esse medo constante”.