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Edição de terça-feira, 19 de fevereiro de 2019.

Pernas maravilhosas



Gerson Kauer

Imagem da Matéria

A fábrica brasileira de calçados deu asas a um italiano. Ele era representante de empresa estrangeira que adquiria produtos fabricados na região calçadista. E assim, passo a passo, em cada uma de suas vindas mensais, ele foi dando palpites sobre cores, opinando sobre modelos, etc. e até autorizado a que pedisse que as funcionárias da fábrica experimentassem os protótipos.

No contexto, ele admirava e apalpava as pernas das trabalhadoras, após o que as convidava para uma esticada. Tinha preferência pela faixa etária dos 20 aos 25, pezinhos tamanho 36 ou 37. Perguntava a elas se gostariam de conhecer Roma e Veneza.

E adorava repetir a cada uma das visadas que "queste gambe sono gioielli meravigliosi". De tanto ouvirem essas frases, as moças descobriram a tradução: "Estas pernas são jóias maravilhosas".

Foi nesse contexto que o italiano ganhou a fama de gringo abusado. A indústria fabricante tinha conhecimento, mas - interessada nas boas exportações - fazia vistas grossas.  Até que ele se engraçou numa trabalhadora casada. Ela deu o estrilo, abandonou a empresa e, uma semana depois, a causa estava na Justiça do Trabalho.

A indústria calçadista se defendeu: “O cidadão em tela não é, nem foi, funcionário da reclamada, mas mero representante de empresa estrangeira, contra quem deverá, na Justiça Comum Estadual, ser aforada a eventual ação reparatória cível, sem nenhuma conotação trabalhista".

Testemunhas deram detalhes e o juiz reconheceu que “o fato de o agressor moral não ser empregado da reclamada é indiferente, pois a empresa deve manter um ambiente de trabalho saudável e respeitoso".

O TRT foi além. Reconheceu que “a reclamante e colegas ficavam sem poder se defender, sob risco de perder os empregos, pois o assediador era pessoa influente e de livre trânsito na reclamada".

A lesada recebeu R$ 20 mil. A empresa perdeu as exportações. O italiano fez viagem definitiva para Milão, sem volta. Como consolo levou, na memória de seu incrementado celular, poses e vídeos dos novos sapatos fabricados e dos respectivos pés que os calçavam, bem como das respectivas “gambe meravigliosi”.


Comentários

Paulo A. P. Cordeiro - Advogado 17.10.17 | 13:15:20

De se parabenizar a decisão judicial, vez que atualmente raros são os deferimentos de dano moral e quando ocorrem, as indenizações são mínimas, muito menores do que a percebida pela reclamante. Talvez seja reflexo da falta de argumentos, mas tanto se repetiu em defesa sobre a "indústria do dano moral" que virou aparentemente argumento válido, especialmente como um capítulo extra do ódio à Justiça Obreira. Como se vê, se era isso, não resolveu a questão do ódio, pelo contrário.

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