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Edição de sexta-feira, 22 de março de 2019.

Amor à prova de balas



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Cena 1 - O homem é denunciado por tentativa de homicídio contra a própria companheira: dois tiros. Um (de raspão) na cabeça; o outro num dos olhos dela. A vítima fica com apenas 50% da visão.

O acusado é condenado no júri e fica preso por algum tempo. Com o seu bom comportamento no cárcere e pelo cumprimento de um sexto da pena, obtém a progressão do regime.

Solto ele, os dois companheiros (o agressor e a vítima) oficializam a união. Casam e vêm a ter uma filha, com atuais 21 anos.

Na prática, os dois nunca tinham se separado. Mesmo quando ele estava preso, a mulher o visitava na cadeia, inclusive com direito a visitas íntimas.

Cena 2 – Em pleno regime conjugal, anos depois, o homem morre e a mulher vai à Justiça Federal buscar pensão por morte. Alega que, ao falecer, o marido trabalhava como boia-fria na região oeste de um dos Estados do sul.

Audiência designada, depondo ela relata sua triste estória de amor:

- "Meu marido bebia muito e ficava agressivo. Teve uma discussão comigo e disparou dois tiros; um acertou meu olho esquerdo, me tirando a visão. O outro tiro acertou de raspão na minha cabeça".

O juiz se comove e enquanto folheia documentos do processo pede, distraidamente, uma informação que já estava nos autos do processo.

- Como era o nome de seu esposo?

- Delito - responde a depoente.

Franzindo a testa, o magistrado procura consolar:

- Minha senhora, eu sei que o seu esposo cometeu um delito, mas isso não nos interessa mais. Afinal, ele já pagou sua pena à sociedade e, ademais, deixou o mundo terreno. O que pergunto é como se chamava o seu finado esposo.

- Delito Diomedes Fianco de Araújo era o nome dele - responde a viúva, já então tirando da bolsa surrada, a identidade do finado marido, logo colocada sobre a mesa do magistrado.

O juiz se surpreende, interrompe o depoimento e vai direto à imprescindível leitura das principais peças dos autos. Então constata que o "de cujus" efetivamente se chamava Delito, havia cumprido a pena por tentativa de homicídio contra a própria mulher, etc. Em seguida, comenta interrogativo, de modo a surpreender advogados, promotor e escrevente:

- Será que o nome Delito definiu o destino deste pobre homem, que veio a falecer bêbado, dentro de um velho automóvel, em acidente de trânsito?

O advogado da viúva não perde a oportunidade para arremedar:

- É possível que sim, doutor juiz. Mas o inegável é que a minha cliente manteve, com ele, um amor à prova de balas.

Cena 3 – A sentença concede a pensão buscada pela sofrida senhora. No foro federal ela fica conhecida com o codinome “a viúva do Delito”.

Com ´D´ maiúsculo, claro.


Comentários

Izaias Tavares Silvi - Estudante De Direito 11.04.18 | 10:42:24

Kkkk, essa foi boa. Espero novas por publicações como essa.

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