Ir para o conteúdo principal

Edição de sexta-feira , 14 de junho de 2019.

O perdão judicial



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Por Vasco Della Giustina, advogado (OAB-RS nº 3.377) e desembargador aposentado do TJRS.

Em uma comarca da fronteira gaúcha, na condição de promotor público, fui testemunha “a latere” de algo incomum. O juiz dali mora no hotel - e sua família reside em outra cidade. Volta e meia sua esposa o visita. Numa das vindas da cônjuge, o apartamento hoteleiro onde fica o casal é alvo de um “voyeur”.

Constata-se que alguém - tudo indica um hóspede – fizera um furinho na porta para espionar afagos íntimos – pontuando-se que a esposa do juiz é bela e elegante. Muito intrigado, o magistrado sai a campo para descobrir o abelhudo autor da invasão visual.

Para tanto, o juiz pede ao proprietário do hotel que determine às camareiras que, quando da limpeza das demais unidades de hospedagem, façam uma varredura nas malas dos hóspedes, para tentar descobrir aquilo que ele imaginava ser a arma do crime. Por evidente, a ordem é logo cumprida!

Assim, num dos apartamentos é encontrada, na mala de um habitual hóspede – um viajante vendedor de livros - uma verruma, sabidamente instrumento próprio para abrir furos na madeira.

Incontinenti, o magistrado, convoca seu oficial de justiça - ao tempo um brigadiano cedido ao fórum - para levar imediatamente à sua presença, na sala de audiências, o indigitado violador. Justamente o hóspede do quarto onde fora encontrada a verruma.

Depois de um chá de banco, o suspeito é levado à presença do juiz que, após fitá-lo longamente, puxa de uma gaveta o instrumento do crime e pergunta:

- O senhor conhece esta verruma?

Sem esperar resposta, o próprio magistrado emenda: “A porta que o senhor furou com esta arma é a do quarto meu e da minha mulher, e o senhor será denunciado por nos espionar indevida e criminosamente”.

O hóspede, entre trêmulo e surpreso, tenta balbuciar algo, mas é logo calado pelo magistrado, que em seguida sentencia: “Agora o senhor vai direto para o presídio, cumprir pena pelo seu ato”.

Devidamente escoltado pelo oficial de justiça, o novo “presidiário” sai a pé, do fórum em direção à cadeia, a três quadras de distância.

Já em meio à praça principal, o “presidiário” é alcançado por um serventuário com a nova ordem para que condutor e conduzido retornem ao fórum.

Reintroduzido o acusado na sala de audiência, diz-lhe o juiz:

- Desta vez eu vou lhe perdoar. Mas o senhor tome o primeiro ônibus que vai a Porto Alegre e nunca mais ponha os pés por aqui.

O novo perdoado, agora aliviado, sai rápido do fórum, em meio a olhares curiosos dos servidores, pega a mala no hotel e desaparece da cidade. Consta na comarca que, até hoje, ele nunca mais ali retornou!

E se crimes ou exageros houve, a esta altura pouco importa, pois o longo período já decorrido, desde o episódio, se encarregou de deixar tudo alcançado pela prescrição.


A PALAVRA DO LEITOR

Se você quiser comentar ou esclarecer alguma notícia, disponha deste espaço.
Sua manifestação será veiculada em nossa próxima edição.

Comentários

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

Charge de Gerson Kauer

“Senhores e senhoras, levantem-se!”

 

“Senhores e senhoras, levantem-se!”

Era o primeiro dia de audiências do novel juiz na comarca. Os advogados e as partes foram entrando na sala, sendo surpreendidos por chamativo aviso: “Em estrito respeito ao Juízo, todos deverão levantar-se no momento que o MM. Juiz adentrar a sala de audiências”. A severa escrivã também fazia a sua parte. Os advogados locais reagiram.

Charge de Gerson Kauer

Aparências enganam!

 

Aparências enganam!

Porta da frente, ou porta dos fundos? Dois dias depois das bodas, a surpresa: na comarca de entrância intermediária, Carlyson ajuizou ação de anulação do casamento contra a jovem esposa Jenifer. Ninguém imaginava o motivo. O experiente juiz logo entendeu tratar-se de “erro essencial quanto à pessoa”. O texto é do advogado Carlos Alberto Bencke.

Gerson Kauer - Divulgação

A loteria da cantada

 

A loteria da cantada

Na casa lotérica, a novel operadora de caixa, percebeu já nos primeiros dias de trabalho, que um dos donos do estabelecimento, insinuava-se com furtivos olhares. Sem demora, vieram furtivos toques de mão. E tudo desbordou em uma ação por dano moral decorrente de “intolerável assédio sexual com requintes de tentativa de indução à prostituição”.  

Charge de Gerson Kauer

A jurisdição terceirizada

 

A jurisdição terceirizada

A proposta instigante de um conselheiro de uma das seccionais estaduais da OAB: comprovar, judicialmente, que a jurisdição é prestada basicamente por assessores e estagiários. É hora de fazer de conta que tudo é ficção.

Charge de Gerson Kauer

O Advogado Fura-Colchão

 

O Advogado Fura-Colchão

Doutor Arencéfalo é o apelido de um advogado muito conceituado. O cognome é uma conjunção de ´Arbelino´, nome do pai dele e ´Encéfalo´, parte do corpo humano que controla o organismo. De repente, a surpresa na comarca: a elegante esposa pede o divórcio. O texto é do advogado Carlos Alberto Bencke.

Charge de Gerson Kauer

As duas Têmis

 

As duas Têmis

No curso preparatório a concursos para ingresso na magistratura, um dos professores resolve aferir os conhecimentos gerais e a capacidade redacional dos alunos. Então entrega a cada um uma folha de papel A-4. Pede-lhes que ”escrevam de 20 a 30 linhas sobre Têmis”. Um dos discípulos sustenta e comprova a existência de uma divindade grega e de uma personagem terrena que não gostava de processos.