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Edição de sexta-feira, 22 de março de 2019.

Um motel na própria casa



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

O juiz lê a minuta de decisão - feita pela estagiária - de nomeação de curador provisório, em uma ação de interdição de Dona Amélia, uma senhora de 80 de idade.

Em seguida, o magistrado analisa a documentação. Nela, um detalhe chama a atenção: a assistente social relata que, em visita ao local onde morava Dona Amélia, os vizinhos informaram que, antes de a casa dela pegar fogo, ela alugava quartos para os casais enamorados desfrutarem de momentos de prazer. Sutil, seria um motel na própria casa.

O juiz tem, então, a intuição de que não se trata de uma idosa que precise ser interditada ou mesmo assistida na vida em sociedade. Além disso, também há a informação de que, num passado remoto, ela fora dona de um bordel em cidade vizinha. Em síntese: seria uma senhora “descolada”, capaz de administrar a própria vida.

O magistrado ainda verifica que Dona Amélia, embora receba uma aposentadoria de um salário-mínimo, tem uma razoável poupança bancária. Diante da conjunção, o juiz altera a minuta preparada pela estagiária, descarta a nomeação do curador provisório e designa, para a semana seguinte, a audiência de interrogatório.

A ela comparece Dona Amélia, acompanhada do presidente do asilo, local em que continua a residir. Ela veste roupas discretas em tons pastéis, e tem um lenço na cabeça. Porém chamam a atenção as unhas das mãos: longas e pintadas com vermelho escarlate.

O juiz começa a questioná-la e Dona Amélia aparenta dificuldades para ouvir. Diz estar com algodão nos ouvidos, em razão de uma infecção. Por isso, usa o lenço envolvendo a cabeça. O magistrado aproxima-se e fala mais alto, até encontrar o volume adequado para a conversa. Fica sabendo, então, que ela era sozinha, sem filhos, nunca casara. Não via desde sua adolescência - nem lembrava se tinha irmãos.

Questionada se ajudava o asilo com algum dinheiro pela morada provisória, Dona Amélia foge da resposta. Logo depois, ela pede, por favor, que o magistrado a tire daquela casa. Questionada onde iria viver - já que a morada dela havia incendiado – responde ter um amigo disposto a recebê-la.

Indiscreto, o juiz pergunta se era “só um amigo ou um namorado”. Ela responde que “ele tem 50 de idade e é apenas um amigo”.

O magistrado faz questões mais específicas, para saber se ela tem noção de tempo e espaço. Uma delas: “Quem é a Presidente do Brasil?”. Ela pensa um pouco e responde: “É a Dilma e eu gosto dela”.

De imediato, o juiz pensa: “Vou interditar esta mulher”. No entanto, passada a incontrolável reação político-partidária, o magistrado se convence de que Dona Amélia não precisava ser interditada. Necessitava, isto sim, liberdade, para decidir os destinos da sua própria vida.

Semanas depois, o juiz fica sabendo que o amigo cinquentão fora buscar Dona Amélia no asilo, passando com ele a residir.

A partir de então, afável com os vizinhos, ela passa a repetir uma frase que resume bem o seu novo estado de espírito: “Agora, sim, estou sendo Amélia, a mulher de verdade”.

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O texto do Romance Forense foi sintetizado a partir de um conto do juiz Giovane Rymsza (TJ-PR), publicado em “A Justiça Além dos Autos”, livro editado pelo Conselho Nacional de Justiça.


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