Ir para o conteúdo principal

Edição de sexta-feira , 14 de junho de 2019.

O juiz dono da bola



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Por Carlos Alberto Bencke (advogado – OAB/RS nº 7.968)

O magistrado era ruim de bola; o promotor e o prefeito, muito bons. O promotor ficara famoso porque - antes de fazer concurso - jogara num time de futsal e tinha um potente chute de canhota, que os saudosistas comparavam com os de Rivelino

O prefeito quase fora jogador de futebol profissional, inclusive pretendido pelo Inter, mas ficara na cidade porque já era professor no ginásio local – e viver do esporte não garantia futuro.

A reunião futebolística acontecia às terças-feiras, depois das seis da tarde e agrupava também serventuários do fórum, advogados, políticos e figuras carimbadas dali. Num início de noite quase hibernal, já prevendo os poderosos arremates do “parquet”, o juiz determinara, antes de começar a brincadeira: “Não vale bomba!”.

Jogo tranquilo, até que a bola ficou à feição para o promotor. Veio rolando na direção de seu pé esquerdo, pronta para um pontapé enérgico, implorando um canhotaço mortal. E não é que...

...Sim, quem ficou na frente dele foi o juiz, conhecido por atitudes heterodoxas nos joguinhos das terças – mas respeitado porque, afinal, era o honorável magistrado da comarca de entrância intermediária.

Voltando ao já preparado chute sinistro: o representante do Ministério Público não titubeou e o canudo partiu fortíssimo, com endereço certo. Mas, entre o promotor e a goleira, estava o magistrado, que foi duramente atingido em seus países baixos.

Logo atendido, feitas as flexões de praxe para as ocasiões doloridas, o juiz recobrou-se, fitou o promotor com olhar de poucos amigos, ergueu a bola como se estivesse empunhando um troféu, não disse uma palavra e foi saindo da quadra.

Político jeitoso, o prefeito interveio: “Excelência, o senhor vai embora? Lembro apenas que a bola não é sua”.

O magistrado, então, virou-se para os atônitos integrantes da cena e vociferou com arrogância: “O jogo está violento, eu disse que não valia bomba. Então decido: a bola está confiscada pela Justiça”.

A comarca nunca mais teve jogo às terças-feiras.


A PALAVRA DO LEITOR

Se você quiser comentar ou esclarecer alguma notícia, disponha deste espaço.
Sua manifestação será veiculada em nossa próxima edição.

Comentários

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

Charge de Gerson Kauer

“Senhores e senhoras, levantem-se!”

 

“Senhores e senhoras, levantem-se!”

Era o primeiro dia de audiências do novel juiz na comarca. Os advogados e as partes foram entrando na sala, sendo surpreendidos por chamativo aviso: “Em estrito respeito ao Juízo, todos deverão levantar-se no momento que o MM. Juiz adentrar a sala de audiências”. A severa escrivã também fazia a sua parte. Os advogados locais reagiram.

Charge de Gerson Kauer

Aparências enganam!

 

Aparências enganam!

Porta da frente, ou porta dos fundos? Dois dias depois das bodas, a surpresa: na comarca de entrância intermediária, Carlyson ajuizou ação de anulação do casamento contra a jovem esposa Jenifer. Ninguém imaginava o motivo. O experiente juiz logo entendeu tratar-se de “erro essencial quanto à pessoa”. O texto é do advogado Carlos Alberto Bencke.

Gerson Kauer - Divulgação

A loteria da cantada

 

A loteria da cantada

Na casa lotérica, a novel operadora de caixa, percebeu já nos primeiros dias de trabalho, que um dos donos do estabelecimento, insinuava-se com furtivos olhares. Sem demora, vieram furtivos toques de mão. E tudo desbordou em uma ação por dano moral decorrente de “intolerável assédio sexual com requintes de tentativa de indução à prostituição”.  

Charge de Gerson Kauer

A jurisdição terceirizada

 

A jurisdição terceirizada

A proposta instigante de um conselheiro de uma das seccionais estaduais da OAB: comprovar, judicialmente, que a jurisdição é prestada basicamente por assessores e estagiários. É hora de fazer de conta que tudo é ficção.

Charge de Gerson Kauer

O Advogado Fura-Colchão

 

O Advogado Fura-Colchão

Doutor Arencéfalo é o apelido de um advogado muito conceituado. O cognome é uma conjunção de ´Arbelino´, nome do pai dele e ´Encéfalo´, parte do corpo humano que controla o organismo. De repente, a surpresa na comarca: a elegante esposa pede o divórcio. O texto é do advogado Carlos Alberto Bencke.

Charge de Gerson Kauer

As duas Têmis

 

As duas Têmis

No curso preparatório a concursos para ingresso na magistratura, um dos professores resolve aferir os conhecimentos gerais e a capacidade redacional dos alunos. Então entrega a cada um uma folha de papel A-4. Pede-lhes que ”escrevam de 20 a 30 linhas sobre Têmis”. Um dos discípulos sustenta e comprova a existência de uma divindade grega e de uma personagem terrena que não gostava de processos.