Ir para o conteúdo principal

Edição de sexta-feira , 21 de dezembro de 2018.

Castigo financeiro e caligráfico



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Na cidade de 9,5 mil habitantes, a esposa reforçava a receita familiar trabalhando em casa, autonomamente, como massagista, atendendo primordialmente o público feminino. Eventualmente ela tratava clientes homens, geralmente queixosos de dores nas costas e artrose nos joelhos. O marido dela era acreditado professor do idioma pátrio, homem exigente com os padrões estéticos da caligrafia de seus alunos.

De repente, a massagista passou a ser acossada por telefonemas gerados por “número chamador não identificado”. Os primeiros foram só de sussurros; outros, sugeriram relações sexuais sem compromisso; mais tarde, vieram pedidos de namoro; e finalmente a insinuação de prostituição: “Quanto me cobras para fazer um sexo tão gostoso como as tuas massagens?” Todos rechaçados, evidentemente.

Depois de umas 20 chamadas despropositadas, houve registro policial e, com autorização judicial, o grampo do celular gerador. Este, logo foi identificado como pertencente a um viajante comercial, morador em cidade vizinha. A gravação de algumas das ligações revelou o crescimento da carga obscena.

Em juízo, o inquérito policial – para fins de ação penal – deu em nada. Mas a ação cível por “perturbação ao sossego e assédio sexual” teve sentença de procedência. O tribunal estadual verberou o abuso das comprovadas 45 ligações e confirmou a indenização que, com os acréscimos, chegaria a R$ 11 mil. (Algo como 2,5 “auxílios-moradia”...).

Na fase de cumprimento de sentença, o oficial de justiça não localizou bens do executado e o Banco Central conseguiu bloquear ínfimos caraminguás na conta corrente prospectada. No início de setembro houve o acordo, cuja essência talvez tenha sido concebida pelo marido da massagista – professor, como se viu.

É que além de pagar R$ 7.000 em dez parcelas de R$ 700 – o assediador aceitou um moral castigo caligráfico: em duas dezenas de folhas de papel A-4, teve que escrever 200 vezes, de próprio punho, de forma legível, uma frase pungente para ele: “Devo respeitar as mulheres!”.

No fecho da última folha, a definitiva capitulação do valentão sexual: “Peço desculpas à massagista ofendida”. Como arremate, passou pelo constrangimento de ir ao tabelionato para o reconhecimento, por autenticidade, de sua assinatura.

Na semana passada, o acordo foi homologado. Sem segredo de justiça.


Comentários

Banner publicitário

Notícias Relacionadas

Chargista Kauer

A “Menina Veneno”

 

A “Menina Veneno”

Bem vivido, bom de bolso graças à consistente aposentadoria recheada de interessantes penduricalhos, o destacado ex-operador jurídico, viúvo, boa pinta -  se é que isso é possível para um cidadão com 70 de idade -  afinal sai com uma moça escultural, bem malhada, 24 anos.  De comum, entre eles, só o Direito.

Charge de Gerson Kauer

  O enterro da sogra que não morreu

 

O enterro da sogra que não morreu

A inusitada abordagem no plantão judicial forense. Como autorizar o funeral de uma provecta idosa, de aparência taciturna, que – como manifestação de última vontade - deseja ser sepultada no sítio em que reside? O texto é de Dirnei Bock Hendler, servidor judicial estadual (RS)

Charge de Gerson Kauer

A fama do João Grande

 

A fama do João Grande

Era uma ação penal contra um homem que estaria ofendendo e ameaçando a ex-esposa. As desavenças ocorriam porque ela postava, nas redes sociais, que o ex-marido vivia sempre na casa do João Grande, famoso na cidade gaúcha por ser bem-dotado.

Charge de Gerson Kauer

O gaúcho caloteiro

 

O gaúcho caloteiro

A difícil intimação de um fazendeiro, já conhecido no meio forense, como o Senhor Caloteiro. O êxito da diligência só acontece porque, no esconderijo, o devedor é acometido de coceira causada por urtiga.

Charge de Gerson Kauer

   A experiência dos velhinhos

 

A experiência dos velhinhos

Segundo a cartilha do banco, os saques mínimos no atendimento presencial seriam de R$ 200. Saiba como a idosa senhora - mãe de um advogado e avó de um estagiário do tribunal - convenceu o caixa de que ela tinha direito líquido e certo a sacar apenas R$ 50.

Charge de Gerson Kauer

Quando o suposto amor vira negócio

 

Quando o suposto amor vira negócio

O cliente, à hora da saída do motel, acelera o carro, derruba a cancela e se vai em desabalada fuga. Saiba porque, em Juízo, o tresloucado gesto do homem comove o juiz e obtém simpatia do dono do estabelecimento de hospedagem.