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Edição de terça-feira, 19 de fevereiro de 2019.

O gaúcho caloteiro



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Em Mato Grosso do Sul, a 60km da capital, Campo Grande, há a comarca de Bandeirantes. A cidade recebe pessoas vindas de diversos rincões brasileiros, dentre elas os sulistas, que ascenderam à região. É nessa comarca que surge o caso envolvendo o o?cial de justiça Antônio João, um servidor dedicado e sério – e um gaúcho notório pela impontualidade em suas obrigações, já conhecido no meio forense como o Senhor Caloteiro.

O juiz determina que uma penhora seja efetivada pelo oficial Antonio. Este, com temor à sua integridade física, leva força policial consigo. Ao chegar à fazenda do devedor, bate palmas, grita, buzina, mas nada... Enfezado, por ?car muito tempo debaixo do sol, à espera do fazendeiro, o servidor começa a gritar, na certeza de que havia alguém na propriedade.

Acode então o ?lho do Senhor Caloteiro, sendo travado o seguinte diálogo:

- Mas bah, quem procuras, tchê?

- Procuro por seu pai, o Senhor Caloteiro.

- O pai não está. Viajou para o Rio Grande e não tem data para voltar.

Desconfiado, o meirinho pede permissão para, com os policiais, dar uma olhada na área. Ninguém é encontrado.

Quando Antônio João e os milicianos estão indo embora, veem, no meio do mato, uma moita se mexer intensamente. De pronto, os policiais apontam as armas na direção daquilo que parece ser a investida de um animal bravio.

Na sequência, o ?lho do Senhor Caloteiro, assustado com a reação policial e as possíveis consequências, passa à frente do grupo e grita:

- Mas bah, pai, se és tu que já vieste lá do Sul, aparece!

Então, sai da moita o Senhor Caloteiro, acometido de coceira por todo o corpo. Ele se escondera atrás de uma plantação de urtiga, folhagem que causa irritação na pele, em razão da presença de ácido fórmico.

Após assinar o mandado e ouvir um sermão do meirinho, o devedor é liberado para tratar de sua incessante coceira e, quiçá, recuperar-se da “longa viagem” entre o Rio Grande do Sul e Bandeirantes.

Uma hora depois, o o?cial de justiça chega ao foro, onde certifica, em miúdos detalhes, a história além de pessoalmente expressar ao juiz a profunda irresignação, acusando a família do Senhor Caloteiro de uma tentativa de enganá-lo.

Curado da comichão, um dia depois o gaúcho Senhor Caloteiro pede a conta e adimple a obrigação.

E até hoje, quando percebe que alguém quer ludibriá-lo, o juiz usa – no círculo dos operadores forenses - a expressão marcante relatada na certidão do oficial de justiça: “Mas bah, pai, se és tu que já vieste lá do Sul, aparece”.

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(*) Resumido a partir de um conto de autoria do juiz Fernando Moreira Freitas da Silva, publicado em “A Justiça Além dos Autos”, editado pelo Conselho Nacional de Justiça.


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