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Edição de sexta-feira , 19 de julho de 2019.

A Gol também na rota terrestre do propinoduto político



Os próximos dias devem ser agitados no mundo das companhias aéreas, e, também, no da política. Não bastasse a novela que envolve a falência da Avianca Brasil – que tem 203 voos cancelados só nesta terça-feira (14), e recebeu, na segunda-feira (13), outra proposta de compra da concorrente Azul -, a Gol desviou a atenção do mercado na direção do Ministério Público Federal, que recebeu delação de seu cofundador, Henrique Constantino, mostrando pagamentos de propina efetuados pela empresa.

Na delação de Constantino, revelada na tarde de segunda-feira, o empresário confessa ter pago mais de 7 milhões de reais em propina a grupo ligado ao ex-presidente Michel Temer (que está preso por outro caso de corrupção e é réu em mais seis processos). Em troca, a Gol obteve mais de 300 milhões de reais em financiamento da Caixa Econômica Federal, banco estatal. As informações são dos saites da revista Exame e do jornal O Globo.

Também foi mencionado no depoimento o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), que teria recebido “benefício financeiro” por meio da Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear). Maia, que está em Nova York para jantar com empresários, disse que a delação “é mentira”, que não há provas e que acredita que o inquérito será arquivado.

Enquanto a Gol aparecia nas páginas políticas, Azul anunciou, também na segunda-feira, uma segunda oferta de 145 milhões de dólares pelos slots (autorizações de pouso e decolagem) da Avianca, o que inclui espaços preciosos na ponte aérea Rio-São Paulo. A Azul já havia feito uma proposta em março, mas, na ocasião, Latam e Gol costuraram com o maior credor, o fundo Elliott, para conseguir que os slots fossem levados a leilão. O leilão deveria ter acontecido no último dia 7 de maio, mas foi cancelado pela Justiça e segue sem nova data.

O cenário ideal para as concorrentes é que a falência da Avianca leve a uma distribuição dos slots, e não que a Azul fique com todos os espaços. Na nova oferta, a Azul estaria comprando alguns horários na ponte aérea, o que não impediria o leilão dos slots, afirma a empresa. Ainda assim, Gol e Latam, cujas ofertas são mais baixas que a da Azul, devem continuar tentando impedir a transação.

Com a delação de Constantino, contudo, a Gol, que é líder do setor, ganhou outros problemas para se preocupar, e as ações da empresa fecharam o pregão de segunda-feira em queda de 7%. Os próximos dias devem fazer a delação seguir tomando a atenção do mundo político e do mercado.

‘Reserva de poltrona’ e ‘localizador’ eram códigos para discutir propina

Em sua delação premiada, Henrique Constantino, revelou também que usava expressões relacionadas a passagens aéreas para conversar sobre pagamentos de propina com o operador financeiro Lúcio Funaro.

As expressões eram usadas para definir quais seriam as empresas de fachada de Funaro que receberiam os pagamentos de propina de Constantino, destinados ao grupo político do MDB.

Outras vezes, eu mesmo fui questionado por Lúcio Funaro sobre os pagamentos, como pode ser comprovado pela troca de mensagens abaixo, na qual utilizamos termos como ‘passageiros’, ‘reservas’, ‘localizador’, ‘bilhetes’, ‘taxa de câmbio’ etc., como metáforas aos nomes das empresas que eram utilizadas à emissão de notas fiscais e aos pagamentos efetivos”, descreve Constantino em um dos anexos de sua delação.

Em mensagem de 1º de agosto de 2013, o empresário pede para Funaro: "Você pode me mandar os dados da pessoa para a reserva da poltrona? Favor mandar para mim na Funchal. Abs."

No dia seguinte, Funaro lhe envia os dados e envia uma mensagem para confirmar: "Recebeu a lista com o nome dos passageiros que te mandei?"

Constantino dá uma resposta positiva: "Recebi. Assim que concluir as reservas, te passo o localizador e a taxa de câmbio. Abs."

O empresário também anexou à sua delação trocas de e-mails entre sua secretária e uma funcionária de Funaro, nas quais acertavam valores e pessoas jurídicas para transações bancárias. “Era comum Lúcio Funaro questionar sobre o andamento dos pagamentos indevidos. Algumas vezes por meio de nossas secretárias, por e-mail”, contou o empresário.

O doleiro Funaro também fez acordo de delação premiada com o MPF, há dois anos, e foi o primeiro a relatar os repasses de propina de Constantino.

A delação de Constantino foi assinada no dia 25 de fevereiro com a Força-Tarefa Greenfield e revelada ontem pela imprensa. O empresário relatou acertos de propina com políticos do MDB, fez acusações ao ex-presidente Michel Temer (MDB) e se comprometeu a pagar indenização de R$ 70 milhões aos cofres públicos.


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