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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 22 de maio de 2020.
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“A juíza que tem beleza de parar o trânsito"



Arte de Camila Adamoli sobre foto Metropoles.com

Imagem da Matéria

 Trânsito parado

O presidente do TJ do Rio de Janeiro, Claudio de Mello Tavares, condenou o que classificou como “ataques pessoais” do prefeito Marcelo Crivella, na última quinta-feira (4), à juíza Mirela Erbisti, que determinou o fechamento da Avenida Niemeyer após deslizamentos de terra, em maio, matarem duas pessoas. O desembargador disse que a fala de Crivella “remete a tempos obscuros da nossa sociedade”. Em evento público, ao comentar problemas do trânsito carioca, Crivella afirmou que a magistrada possui um saite que “ensina mulheres a conseguir namorado”.

O argumento foi apresentado à plateia antes de Crivella justificar por que, na sua opinião, a magistrada errou ao não aceitar pedido da prefeitura para reabrir a via em dias de sol, sem chuva.

  A juíza bonita

No início de seu discurso na quinta-feira, Crivella pontuou:

A juíza tem seus 40 anos e é muito bonita. Tem uma beleza de parar o trânsito, mas não precisa praticar, né, pessoal? Não precisa praticar. Interessante, porque é difícil encontrar mulher teimosa, né? Isso é raro, não é gente? Hein, gente? Normalmente, elas concordam, né? Normalmente...”

E prosseguiu:

- Vocês precisam conhecer a juíza que fechou a Niemeyer. Ela se chama Mirela, tem um saite na internet, que se chama 'Togadas e Tatuadas'. Ela ensina mulheres a se vestir, como conseguir um namorado. Aquele saite dela é uma coisa interessante. Muito bem. Eu sou engenheiro. Já fiz cem obras. Graças a Deus, nunca caiu.

 Desdobramentos processuais

No dia 25 de setembro, apreciando agravo de instrumento do Município, que pediu tutela antecipada para a reabertura da avenida, o desembargador Agostinho Teixeira, da 13ª Câmara Cível do TJ-RJ pediu vista do processo, o que interrompeu o julgamento. Dois desembargadores haviam decidido conceder parcialmente o efeito suspensivo ao recurso.

O relator, desembargador Mauro Pereira Martins, havia revisto sua decisão de manter a via fechada, no que fora seguido pelo colega Sirley Biondi.

 Reações da magistratura

O presidente do TJ-RJ lembrou que “a via recursal é a forma correta para combater decisões judiciais das quais se discorda”. Também pontuou que “o interesse público está acima de interesses pessoais, políticos e religiosos”.

E a presidente da Associação dos Magistrados do Rio de Janeiro, juíza Renata Gil, divulgou nota em que classificou a atitude do prefeito de “ataque grosseiro” e de “discurso machista”.

 As desculpas de Crivela

Na manhã desta terça-feira, o prefeito Marcelo Crivela, em entrevista à Rede Record, desculpou-se timidamente pela piada feita com a magistrada. Disse que “o comentário foi gracejo típico de carioca” (...) e “quero aqui me redimir e dizer à juíza que me desculpe”.

E logo o político desfiou um rebuscado comentário sobre o Judiciário do Rio de Janeiro e, especialmente, sobre o presidente do TJ-RJ, desembargador Claudio de Mello Tavares: “É uma plêiade de denotados servidores do Direito, obreiros da Justiça e que têm no eminente presidente Claudio uma das figuras mais notáveis e altas da aristocracia jurídica do Brasil”.

 Conferindo na internet

O Espaço Vital vasculhou internet e redes sociais – mas nada encontrou sobre o suposto saite “Togadas e Tatuadas”. A magistrada Mirela Erbisti (43 de idade) e sua colega Tula Melo (44) fazem sucesso, todavia, no Youtube.

Aprovadas no concurso da magistratura de 2001, quando se conheceram, as duas chamam mesmo a atenção – e não só pelos longos cabelos loiros ou pelas tatuagens aparentes.

Desde março dede 2018 elas vêm aparecendo no programa "Justo Eu" no Youtube, em que discutem temas atuais e polêmicos. Na pauta estão machismo, direitos dos transexuais, inclusão de pessoas com autismo, violência doméstica e poliamor, por exemplo.

Mirela é titular da 3ª Vara de Fazenda Pública e professora de Criminalística. Foi ela quem, em 2017, manteve a proibição do Estado do Rio em conceder ou renovar benefícios fiscais, no auge da crise econômica fluminense.

Juíza da 20ª Vara Criminal e mestre em criminologia, Tula trabalhou no caso do jornalista Tim Lopes (morto por bandidos, em 2002, no Complexo do Alemão), julgou os nadadores americanos Ryan Lochte e James Feigen, que inventaram ter sido assaltados na Olimpíada de 2016, e obrigou a remoção de chefes do tráfico para fora do Rio.

Para acessar “Justo Eu”, clique aqui.


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