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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 10 de julho de 2020.

O amor é cego?



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

No primeiro dia do novel juiz na comarca de primeira entrância, a primeira audiência da tarde daquela segunda-feira é de conversão de divórcio litigioso em consensual.

Protocolarmente sentados, separados pelos dois lados da mesa, estão o homem (45 de idade) e a mulher (43) que conjugalmente se desacertaram – mas que, processualmente, transacionaram. Ao lado de cada um deles, os respectivos advogados. Presentes também o promotor de justiça e a escrivã.

Numa cadeira ao fundo da sala, muito bem vestida, pernas cruzadas respeitosamente, joias reluzentes, bolsa de grife – mas feia, rigorosamente feia – está uma mulher anônima. Ela tem nada a ver com a audiência. Ou tem...

O magistrado percebe, pelo piscar de olhos e trejeitos nas mãos da mulher feia, que ela tem alguma intimidade com as partes. Talvez fosse a mãe da divorcianda – imagina o juiz.

Como é estreiante na comarca, o magistrado se contém, não pergunta quem é aquela feia mulher anônima, que talvez nem mesmo a habilidade dos sucessores do doutor Pitangui pudesse dar jeito. E logo pergunta às partes se elas estão conformes com a transação formalizada em petição firmada pelos dois advogados.

Tudo nos trinques, assinaturas colhidas, divórcio sacramentado, o juiz deseja “boa sorte” aos ex-litigantes conjugais, e agradece a presença de todos.

O ex-cônjuge varão levanta-se vai ao encontro da feia mulher de 60 , beija-a respeitosamente no rosto e ambos saem, discretos, de mãos dadas.

Antes que o magistrado pergunte algo, a escrivã – entrosada nas coisas da cidade – esclarece em baixo tom de voz:

- É a própria cunhada. Ele deixou a mulher de 43 para ficar com a irmã dela, 17 anos mais velha. Mulher de 60, viúva há dez anos, ela é a provedora de tudo! Tem patrimônio invejável...

O juiz ainda espia pela vidraça e vê o novel casal embarcando num Mercedes Benz. E antes que o flamante automóvel dê a partida, o magistrado informalmente questiona o promotor: “Será que o amor é realmente cego?...”

O promotor desconversa:

- A primeira audiência, o senhor nunca esquece...


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