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Porto Alegre (RS), sexta-feira, 10 de julho de 2020.
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O fim do casamento



Arte EV sobre foto Camera Press

Imagem da Matéria

Há casos surpreendentes na Justiça do Trabalho: filho versus pai, sogra versus genro, irmãos em conflito, cunhados, etc.

Ainda há quem diga: “Sei que não está cem por cento correto o procedimento que utilizo, mas me dou muitíssimo bem com o fulano e com ele não tem perigo de me incomodar”.

Recordo de um relato referente a uma propriedade rural cujos empregados, pessoas de idade, iniciaram a trabalhar com o pai do então dono. Ele estava preocupadíssimo com o que poderia ocorrer no futuro, pois não possuía qualquer recibo daquela longa relação.

Foi orientado que, de imediato, passasse a pagar somente contra recibo, ao que reagiu:

- Doutor, esse homem tem quase 85 anos e nunca lhe foi pedido um recibo. Se eu pedir será como dar um tapa na cara dele.

Continuou a relação sem recibos, até quando o velho empregado faleceu, sem qualquer queixa às rotinas consolidadas durante os anos. Após, de imediato, a filha incentivada pelo marido, ingressou com a demanda trabalhista.

Bem, mas naquela tarde o caso era diferente. A reclamante uma mulher aparentando mais de 40 anos, e o reclamado um senhor de mais de 80 anos. A alegação era de que por vários anos trabalhou para a família como empregada doméstica. O alegado contrato teria perdurado por mais de trinta anos.

Evidenciava-se o desconforto do empregador com a situação.

Ao prestar depoimento a reclamante revela circunstâncias confusas: iam ao supermercado juntos, aos domingos ele tirava o Opala Comodoro da garagem (uma relíquia) e com ela rumavam para a churrascaria que ficava na entrada da cidade. Às vezes viajavam...

Lá pelas tantas, diante da insistência do juiz, a reclamante revela:

- Excelência, foi assim... quando eu comecei a trabalhar ele era casado com a dona Juçara, com quem a minha mãe já havia trabalhado anteriormente. Uma pena, mas ela ficou gravemente doente e em questão de poucos meses faleceu. O seu Agenor ficou viúvo e continuou residindo na mesma casa. Mesmo antes da perda da esposa, o seu Agenor sempre foi mulherengo. Depois de uns meses morando juntos, passamos também a dormir juntos, no mesmo quarto. Acontece que embora nos déssemos muito bem, o defeito dele nunca desapareceu. Saía, voltava tarde, daquele jeito.

Puxou fôlego e externou sua decepção:

- Uma madrugada, ele chegou com quatro manchas vermelhas na camisa branca que, um dia antes, eu tinha lavado e passado com todo o capricho...

Dito isto, indiscutivelmente o cenário era de uma relação conjugal, e não empregatícia.

Como é obrigatório o juiz dá curso a segunda oportunidade para um acordo.

A reclamante afirma que não deseja dinheiro, mas a cama de casal, os demais móveis do quarto, o fogão a geladeira, o sofá e a televisão. Perguntada sobre o “salário, valores pecuniários”, ela diz que sempre pediu a ele e recebeu o dinheiro que necessitava.

O idoso cidadão concorda com a transferência dos bens móveis, adicionando ao rol a roupa de cama e a cozinha.

Celebrado o acordo que em nada interferiria no eventual pedido de pensão ou de divisão patrimonial, as partes e advogados levantam-se para as despedidas.

A reclamante não perde tempo, olha para o reclamado e diz:

- Espero que tenhas sossegado o pito.

Ele olha ternamente para ela, e sapeca:

- Só morto, querida...


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