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Porto Alegre, sexta-feira, 16 de abril de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 20).

Os azares de Nildo e a ressurreição de Sofrenildo



Arte de Gerson Kauer sobre imagem de SamPaulo

Imagem da Matéria

Nildo, um morador de rua, foi preso por tentativa de furto. Distribuído o auto de prisão em flagrante, o Ministério Público requereu a conversão em preventiva, face aos antecedentes com muitas anotações de fatos semelhantes. Assim - não tendo domicílio certo nem ocupação lícita - Nildo foi mantido preso.

Durante o interrogatório, ele pareceu ser inimputável. A Defensoria Pública  requereu a instauração do incidente de insanidade mental, sendo ele transferido para um hospital penitenciário. A perícia comprovou que Nildo era portador de doença mental que o impedia de discernir o caráter criminoso dos fatos. Assim foi declarada a sua inimputabilidade e ele seguiu recolhido no estabelecimento hospitalar.

Meses depois, os peritos consideraram que, diante do tempo em que Nildo se encontrava internado e em tratamento medicamentoso, a medida de segurança indicada seria a de tratamento ambulatorial, pois não demonstrava periculosidade. O óbvio seria a soltura.

Mas houve o peculiar: Nildo declarara, no interrogatório, que o pai sumira, mas que tinha mãe e irmãos vivos, e que com eles morara, antes de debandar para as ruas. Só que... não sabia informar o endereço dos familiares. A juíza percebeu então que a soltura de Nildo poderia colocar-lhe em risco, pela ausência de tratamento médico, considerando a possibilidade de o enfermo voltar a delinquir.          

“Ele é a encarnação de Sofrenildo” - escreveu o defensor público, evocando personagem criado, nos anos 90, pelo chargista gaúcha José Sampaio, o SamPaulo (* 1931 / + 1999). Sofrenildo era o típico homem azarado, protagonista das tiras de humor que retratavam as aventuras e desventuras de um cidadão comum para quem era difícil que algo desse certo.

Assim a magistrada determinou tentativas de localização dos familiares. Pergunta aqui, procura ali, volta amanhã acolá, um mês depois foram localizados a mãe e os dois irmãos - os três foram levados ao fórum. Aí, o inusitado aconteceu: a família de Nildo ficou estarrecida e emocionada. É que há tempos havia realizado o seu sepultamento, porque, equivocadamente, haviam reconhecido um corpo, em estado de decomposição parcial, como sendo o de Nildo.

Assim, em meio a uma grande comoção inclusive dos servidores forenses, Nildo foi entregue à sua família. Mas era necessário regularizar sua situação civil, anulando o registro do óbito e, complementarmente, procurando saber de quem era , afinal, o corpo sepultado.          

A Defensoria Pública aportou a petição apropriada - inclusive para fins previdenciários - e a ação teve seus trâmites ordinários. Às vésperas da sentença, novo imprevisto para Nildo. O promotor levara os autos para casa, a fim de preparar o imediato parecer - mas no percurso para a residência foi assaltado, sendo compelido a entregar seu veículo aos meliantes, que levaram, também... o processo de Nildo.

O automóvel e a papelada não foram jamais localizados. E com mais razão, o defensor público comparou que “Nildo é mesmo um Sofrenildo - como parece terem pressentido pai e mãe, já por ocasião do registro civil”.

Os autos se encontram em fase de restauração e Nildo espera o curso de um novo e burocrático tempo para que sua cidadania e situação previdenciária sejam oficial e juridicamente reconhecidas. Na rotina forense, o infeliz homem agora é conhecido como “O Ressurreto Sofrenildo”.


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Imagem: Google - Edição Gerson Kauer

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