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Porto Alegre,sexta-feira, 5 de março de 2021.
(Próxima edição: terça-feira, 9).
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Imprevistos, intimidades e extravagâncias



Ilustração de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

O fato se passa numa audiência criminal. O casal havia se separado e, depois disso, o ex-marido teria ameaçado a esposa, o que os leva ao fórum para a resolução da pendenga.

A juíza expõe a vantagem da transação e do consequente arquivamento. A mulher concorda em nome da paz, mas exige que o marido lhe entregue “os meus bens pessoais que ficaram na casa dele”.

O homem, previdente, diz que “não há problema, estou com os tais bens em meu carro”. Prontifica-se a buscá-los. Suspensa a audiência por poucos minutos, o homem vai até seu veículo e volta com uma caixa. Coloca-a no chão e, de

seu interior, começa a retirar peças e objetos, colocando-os sobre a mesa. A primeira é uma calcinha - diminuta e roxa.

- Lembra-se, foi comprada em Paris? – ele provoca.

A mulher dá de ombros. A segunda peça é o sutiã:

- Sem o porta-seios, a calcinha não teria valor, pegue e faça bom uso – diz o homem.

A mulher segue calada, com a cara amarrada.

A terceira peça é... – imaginem o leitor e/ou a leitora.

– Você não iria poder viver sem ele – o homem então coloca em cima da mesa um sugestivo artefato erótico de silicone.

Nesse momento, a mulher explode:

– Guarda contigo. Isso não é meu... Que absurdo!

Seguem-se palavras de baixo calão, de parte a parte. E novas provocações:

– É seu!

– Não! Não  é meu!

– É seu, sim! Você até o apelidou de maranhão...

– Mentiroso, safado, tu é que usavas ele...

A juíza, ruborizada, intervém:

– Tirem o maranhão daqui, ou chamo a polícia.

Ninguém toma a iniciativa e, assim, o maranhão jaz sobre a mesa. A magistrada reitera: vai chamar a polícia. É aí que o advogado do marido diz que resolveria o problema: pega o maranhão, retira-o de cena e o enfia embaixo do próprio paletó.

O artefato, assim, sai da cena judiciária.

Assinado o acordo, antes que todos deixem a sala, o advogado do marido trata de esclarecer:

–  Informo que descartarei o maranhão, imediatamente após, na cesta de lixo aqui do andar.

Então, levanta-se e executa a tarefa final. Nunca mais, no foro, fica-se sabendo do destino do maranhão.

Mas há quem especule que mãos travessas se apropriaram do objeto, antes que ele fosse levado na coleta rotineira do Departamento de Limpeza Urbana. 

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Adaptado a partir de um texto do desembargador Gilberto Ferreira (TJ-PR), publicado em “A Justiça Além dos Autos”, editado pelo CNJ (2016).


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