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Porto Alegre, terça-feira, 27 de julho de 2021.
(Próxima edição: sexta-feira, 30).
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Namoro indeferido, aliás deferido



Charge de Gerson Kauer

Imagem da Matéria

Era 11 de junho de 2017, véspera do Dia dos Namorados, quando em uma rede social em que navegam operadores jurídicos, vazou a cópia de petição, em versos, que um jovem advogado teria dirigido à juíza da comarca – ambos solteiros. A peça teria sido postada em envelope lacrado, grampeado em autos físicos, devolvidos após carga regulamentar.

Aparentemente apaixonado pela magistrada - depois de insinuantes trocas de olhares em audiências - o advogado teria criado a seguinte petição:

Eu, bacharel em direito

Conforme a lei em vigor,

Venho com todo o respeito

Requerer o seu amor.

 

Meu coração tem urgência

E não podendo esperar,

Peço que Vossa Excelência

Me conceda a liminar.

 

Caso eu a tenha ofendido

Com a inépcia do pedido,

Rogo pelo amor de Deus:

Se me faltou algum tato,

Prenda-me por desacato,

Mas prenda nos braços seus”.

Prontamente, a magistrada teria despachado à mão, numa folha naturalmente sem timbre, aposta dentro de um envelope de insinuante cor rosada, mandado entregar, no mesmo dia, no escritório do advogado.

Aberta a sobrecarta, duas surpresas. A primeira foi um brado de recusa:

Em toda a minha carreira,

Como juíza de direito,

Nunca vi tanta besteira,

Nem tamanho desrespeito.

Minha conduta moral

É lei que não se revoga

Nem com sustentação oral

Diante da minha toga.

Por isso, senhor advogado,

Seu pedido tresloucado

Indefiro nesta liça”.

A surpresa definitiva estava nos versos finais, fazendo com que o advogado arregalasse os olhos:

Depois, com a noite em curso,

  Fora do expediente,

  Eu aguardo o teu recurso.

  Espero te faças presente

  Não serei uma castiça,

  Mas exigirei segredo de justiça”.

Segundo a “rádio-corredor”, em seu apartamento o advogado recebeu a jovem magistrada, às 8 da noite do dia 12. Soube-se que durante a tarde – antes do caliente encontro - ele esteve no melhor hipermercado da região, em busca de taças de cristal e ingredientes para um jantar aprimorado: a melhor champanhe, trufas selvagens, salmão chileno, licor fabricado por monges beneditinos e outros quitutes.

Não há controvérsias, transitou em julgado. Mas sem segredo de justiça.


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