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Edição de sexta, 20 de maio de 2022.
(Próxima edição: terça dia 24 de maio.)
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Papai Noel visita a sede da OAB



Chargista Duke

Imagem da Matéria

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(Adaptado a partir de um conto escrito pelo advogado Rafael Berthold (OAB/RS nº 62.120)

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O presidente da OAB chega à instituição. Ele recém se acomoda quando a secretária adentra, aflita.

– Doutor, aguarda-o na recepção um senhor de paletó e gorro vermelhos, camisa social verde clara, gravata cinza clara... Diz ser o Papai Noel, mas tem jeito de advogado.

O dirigente atalha:

– Diga a ele que, no momento, não temos projetos sociais que necessitem de imitadores de Papai Noel. Ademais, no dia 1º de janeiro vou passar o cargo ao novo presidente eleito.

A secretária contrapõe:

– Não, doutor! Ele alega ter um assunto oficial e atual para tratar com a OAB. E insiste em dizer que ele é o próprio Papai Noel.

O presidente acede:

- Diga que entre!

Noel acessa o gabinete, já desferindo o primeiro ataque:

– Vocês, advogados, vão acabar com o Natal!...

O presidente abre um sorriso - pensando ser um 1º de abril extemporâneo - e se prepara para argumentar. Mas o visitante logo abre um saco e exibe uma imensa lista, com dezenas de pedidos:

– Eu já atendo pedidos de todas as crianças do mundo! Veja aqui o rol de solicitações feitas por advogados. A deste ano contém coisas difíceis de atender...

O chefe da Ordem, então, lê a longa lista. Há pedidos como “melhores honorários sucumbenciais; conciliadores não presidindo audiências de instrução e julgamento; juízes não se recusando a receber advogados; estagiários sendo só estagiários; magistrados e servidores presentes de segunda a sexta, dois turnos; pagamento dos precatórios. E recentemente, nas vésperas natalinas, magistrados, membros do Ministério Público e defensores públicos atuando em causa própria...”

A lista segue nesta linha. Mas o presidente da OAB - advogado espirituoso que é - aproveita para apoiar as reivindicações da classe:

Abrindo os braços num habitual gesto seu, argumenta:

– É ficção, mas eu até incluiria, na lista, que o Supremo deixasse de lado a mania de legislar. E que a magistratura nunca mais fosse penduricalhista.

– Presidente, eu não sou Deus, sou Papai Noel. Eu trago presentes em meu grande saco. Mas é impossível colocar todas essas situações forenses em meu saco...

O dirigente da Ordem aplica seus conhecimentos de psicologia e apruma o norte da conversa. Ela termina amena, o pretenso Noel conforma-se, toma um cafezinho, agradece, despede-se e sai.

Minutos depois o presidente fica sabendo que o Noel visitante era um advogado jubilado, abatido ante os desgostos decorrentes do aperto financeiro em que vive. Ainda mais depois da frustrada tentativa de receber precatórios que o Estado não paga. E, pior: soubera que alvarás de seus honorários tinham ficado adormecidos sobre as rígidas carcaças de algumas incorrigíveis tartarugas forenses.

Com uma expressão amarela no rosto, o presidente então comenta com um conselheiro que está chegando:

– Eu tenho que concordar com o Doutor Noel. Situações como essas, não há saco que aguente...


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