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Edição de quinta, 4 de agosto de 2022.
(Próxima edição: terça dia 09.)
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A ovelha voadora



Imagem da Matéria

Arte EV sobre foto DISPEC.com.br / Google Imagens

A comarca era tranquila e permitia desenvolver um trabalho produtivo. O relacionamento entre advogados e serventuários era muito bom. A dupla de irmãos tinha bancas separadas com grande clientela. O mais velho, vou batizá-lo de Zé, era ativo e perspicaz. O mais novo era ponderado e estudioso.

Certa vez convidaram a família do juiz para uma marcação de gado no interior de uma cidade vizinha. Enquanto os peões arrebanhavam o gado para a mangueira, aproveitei para conhecer a redondeza.

Próximo ao meio dia os proprietários preparavam a mesa na casa sede da fazenda, cheia de enfeites e guardanapos, certamente esperando que o juiz devia ser muito cerimonioso. Ao procurarem, encontraram-me sentado na raiz de uma figueira, na beira do fogo, lambendo uma costela de ovelha de lado a lado, tentando conversar com o assador que era deficiente auditivo. Acabou a mesa sendo transportada para próxima ao fogo, perto da mangueira, sem cerimônia.

Após o almoço começaram os trabalhos campeiros.

Na saída da mangueira choviam os laços na direção do novilho, mas o que inevitavelmente restava, na pata da frente, era o do meu amigo assador. O advogado Zé tinha força e destemor e derrubava o novilho numa torcida de cabeça, tarefa bastante perigosa. O irmão de Zé preferia mais tourear os novilhos após a soltura.

No momento da marcação, o fazendeiro manejava sua faca afiada e logo os testículos rolavam na brasa, de onde eram retirados, rolados no sal e distribuídos aos presentes.

Para quem nunca assistiu é um dia inesquecível, relembrando-se o histórico das origens do gaúcho que precisa ser forte, bravo e solidário, pois evidente o risco de se lidar com um animal de grande força, onde todos os peões acorrem para em conjunto submeter o animal bravio.

Zé sabia que eu gostava de chimarrão e, como chegava cedo ao fórum, todas as vezes que tinha audiência comigo, trazia para o fórum sua garrafa térmica, cuia e bomba.

Uma das audiências se estendeu até mais tarde e já passava um pouco do meio dia quando eu e o promotor descemos, após fechar a sala de audiências, e chegamos à porta da frente. Ali o porteiro aguardava para fechar o fórum.

Ao sairmos nos deparamos ali em frente com o advogado Zé escorado em um poste, de costas para nós, com o braço estendido para a frente do corpo e esguichando um liquido quente. Surpreso com a cena eu disse:

- Zé, de ti eu não duvido nada mesmo!

Uma cristalina gargalhada ecoou na avenida enquanto ele se virava em direção a mim e ao promotor com a garrafa térmica presa no meio das pernas...

Certa ocasião realizei uma audiência em que a acusação era crime contra a fauna. A denúncia descrevia que o acusado praticara caça e transporte ilegal de marrecas que haviam sido apreendidas em seu veículo.

Citado, compareceu o réu acompanhado do conhecido advogado como seu defensor. Ao interrogá-lo, este confirmou que estava transportando a carne apreendida, mas afirmou que se tratava de carne de ovelha. Nem insisti, pois já havia olhado o processo antes da audiência e vi que faltava o laudo de constatação de substância, ou seja, podia ser qualquer coisa.

Depois da proferir a sentença de absolvição e dispensar o réu, não resisti e disse para o ilustre defensor:

- Doutor Zé, já vi de tudo, mas nunca tinha visto ovelha com asas!


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