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Edição de quinta, 4 de agosto de 2022.
(Próxima edição: terça dia 09.)
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Brasil com déficit de civilidade



Imagem da Matéria

Imagem Camera Press

Participando do BRAZIL FORUM UK, evento realizado em Oxford no último sábado (25), o ministro Luis Roberto Barroso foi interrompido em duas oportunidades por dois brasileiros - que também participavam - e o chamaram de mentiroso

Em pauta a novela da urna eletrônica, realidade que apenas não é admitida pela má-fé e a bravata de alguns.

O embate em si não importa, mas é relevante o que afirmou o ministro diante dos gritos histéricos e das ofensas a ele dirigidas: “O Brasil enfrenta um sério problema de déficit de civilidade”.

Concordo com a profunda observação do ministro - e se alguém tiver alguma dúvida que reflita acerca do que ocorre nos centros urbanos. Há muito a educação e o respeito entre as pessoas viraram coisas do passado ou dos fracos.

Não falo do sistema educacional brasileiro que, de tão obsoleto à nossa realidade, transforma o nosso povo em um exército de ignorantes.

Com certeza, o ministro apontou a educação, aquela que apreendíamos em casa, quando os pais davam atenção aos filhos não para atenderem as suas irrefreáveis vontades e caprichos, mas para ensiná-los o que é indispensável para viver civilizadamente.

Saindo do hotel pela manhã, em Brasília, me dirigindo ao trabalho, fui transportado por um Uber. O rádio a todo o volume, sintonizado em uma emissora evangélica onde um pretenso pastor bradava: “Você que está saindo para o trabalho desanimado, com uma montanha de problemas e de documentos sobre a mesa, deve usar a água santa que repele essas coisas provocadas pelo demônio.”

Se o motorista é um daqueles que alimenta o comércio da fé, é problema somente dele, não meu. O meu problema é ser obrigado a ouvir bobagens a todo o volume, inclusive quando atendia o telefone.

É só um exemplo do cotidiano, onde jovens dirigem-se às pessoas bem mais idade, como “tu”, ou simplesmente pelo nome.

Em uma grande loja daqui aguardava para ser atendido. No momento só vendedores no estabelecimento, todos de olho no celular, com fones nos ouvidos e digitando textos como se fossem robôs.

No trânsito, usar o pisca-pisca para anunciar uma manobra provoca um buzinaço - sem que alguém oportunize a vez.

Nos elevadores de grande fluxo ao chegar no térreo os que pretendem nele ingressar, forçam a entrada sem suspeitarem que para entrar é preciso que os que estão dentro saiam.

O ministro Barroso reclamou da participação dos ofensores no debate e eu reclamo de situações prosaicas da convivência diária e da falta de compreensão de que devemos respeitar o outro.

Tornou-se moda o uso de mochilas, verdadeiros anexos às pessoas. Ocorre que quando alguém que usa mochila se vira - especialmente dentro dos aviões e dos ônibus - provoca uma verdadeira agressão no outro, um mochilaço.

Quem puder, anote a quantidade de vezes durante um dia normal em que somos desrespeitados no direito de viver sem ser incomodado. Viver sem já pela manhã ser bombardeado por ligações, gravações e mensagens de corretores de imóveis, empresas de telefonia, de tevê a cabo, etc.

É frustrante esse estado de coisas, pois a degradação do nosso país também passa por aí. Quantas gerações serão necessárias para recuperar o respeito e a civilidade?


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